sábado, 16 de dezembro de 2017

barcelonas

Lá em maio, ainda quando lia o bom "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, resolvi começar a folhear "Barcelonas", mimo que carrego comigo há décadas. Ato contínuo "I was drowning in honey, stingless", como sempre deve ser. Manuel Vázquez Montalbán escreveu o robusto  texto desse livro, que inclusive inspirou e foi confessadamente utilizado por Tóibín na elaboração do seu, como material de divulgação dos Jogos Olímpicos de Barcelona, que seriam celebrados em 1992. Mas se o que escreve Montalbán é seminal, rico e detalhado, repleto de informações e poesia, são as ilustrações, reproduções fotográficas, desenhos e imagens incluídas no livro que nos enfeitiçam, conduzem nosso olhar, quase nos impedindo acompanhar cada página de leitura até o fim. Talvez esse prodígio seja culpa do desenho gráfico do livro, assinado por Ferràn Cartes, um respeitado artista plástico catalão. Montalbán divide seu livro em seis grandes seções. "Desde as colinas", onde treina o olhar do leitor, fazendo-o acompanhar a geografia da cidade quando vista do alto, do Tibidabo, de Vallvidrera (habitat de Pepe Carvalho, seu personagem icônico), de Montjuïc, e também de suas sete modestas colinas, como as de Roma em número (os catalães são sempre tremendos em suas ambições): Monterols, Putxet, Creueta del Coll, Carmel, Rovira, Peira e Modollell. "Las ciudades sumergidas" percorre o tempo, as camadas de povos e culturas que se fixaram naquela região onde hoje vivem os catalães, importante centro comercial do Mediterrâneo desde tempos remotos. Em "El hombre libre en la ciudade libre" quem se sobressai são os indivíduos, em número anônimos, mas quando são identificados tornam-se na visão de Montalbán quase heróis, fadas, portentos (Montalbán descreve aqui e nas duas seções seguintes os períodos trágicos da cidade, sempre as voltas com um desejo de independência baldado; as fotografias destas três seções são soturnas, pesadas, carregadas de mágoa). A seção seguinte, "La Bem Plantada", conta a arquitetura, a engenharia, a distribuição dos equipamentos urbanos, a vocação da cidade para aceitar planejamentos que a modificam sem que a magia original se perdesse; fala dos bares, teatros e museus, dos desastres que a guerra civil provocou nas ruas, nas esculturas, nos bairros, nas edificações, e nas gentes, claro. "La ciudade ocupada" fala de como corações e mentes catalãs se resignaram nos anos da ditadura franquista, de como se operou o milagre da transição para a democracia, a reconstrução moral da cidade ocupada, como o título explicita. "Milênio" encerra o volume, prospecta um futuro, um porvir, uma possibilidade. Montalbán fala sobretudo dos projetos urbanos que serão feitos para os Jogos Olímpicos (a decisão havia sido tomada há pouco, em 1986), mas também fala do reerguimento da auto estima da cidade, da oportunidade, da possível volta da magia, da renovada utopia. Quase tudo o que foi escrito em 1987 ainda vale hoje, trinta anos depois. Inegavelmente os Jogos Olímpicos foram um sucesso e a cidade tornou-se um local de turismo privilegiado e marcante. Montalbán foi também um poeta, foi um homem otimista, sempre acreditou na capacidade de uma coletividade vencer qualquer obstáculo, qualquer desafio. Ele filtra com esses seus olhos confiantes uma sociedade complexa, que talvez tivesse mais matizes sociais do que ele era capaz de aceitar. Reli esse livro sobretudo por conta do que aconteceu na Catalunha neste ano. A tentativa da Generalitat de Catalunya (capitaneada por Carles Puigdemont) de forçar sua separação do Estado Espanhol, declarando unilateralmente a independência, em outubro, implicou em uma intervenção na Generalitat, a fuga de Puigdemont  e vários outros diputats independentistas para a Bélgica e a convocação de eleições gerais para o próximo 21 de dezembro. Ninguém sabe dizer hoje qual será o resultado prático das eleições. Ganhem os grupos nacionalistas ou os independentistas a questão da identidade catalã não se tornará por mágica menos complicada, menos tensa, menos humilhante para os catalães. Logo saberemos. Talvez eu acrescente um post-scriptum nesse registro, contando os sucessos das eleições. Vamos ver. Vale!
Registro #1248 (perfis e memórias #83)
[início: 10/05/2017 - fim: 15/12/2017]
"Barcelonas", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editorial Empúries / Grup62, 1a. edição (1987), capa-dura 31,5x31,5 cm., 247 págs., ISBN: 84-7596-145-5

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

falcó

Primeiro volume de uma prometida série, "Falcó" garante momentos de diversão descompromissada para o leitor curioso sobre a guerra civil espanhola. Arturo Pérez-Reverte é um mestre na arte de escrever já pensando em uma possível adaptação cinematográfica. Claro, ele abusa sem dó dos clichês de livros de espionagem, do cinema noir, dos romances de aventuras e mistério, onde homens duros flertam com mulheres fatais, mas sabe povoar seu livro com um bom conjunto de protagonistas, produz diálogos inteligentes e controla o desenvolvimento das ações de seu folhetim até levá-lo a um insuspeitado final (a coisa não fica longe de ser caricata, mas quem se importa, se acabamos nos divertindo e aproveitando os truques narrativos que ele distribui pelo livro). Lorenzo Falcó é uma espécie de contraponto cínico ao heroico e valoroso Capitão Alatriste, personagem já consagrado de Pérez-Reverte. Reconhecido especialista em termos militares, Pérez-Reverte identifica sempre que possivel os modelos das armas, os tipos de granada e morteiros, caminhões de transporte, navios e indumentária utilizada pelos personagens. Falcó, um ex-contrabandista de armas, é um agente dos nacionalistas, grupo daquele que viria a tornar-se o ditador da Espanha por trinta e cinco anos, Francisco Franco. Acostumado a infiltrar-se nas linhas inimigas, a dos republicanos, ele sabe torturar e aguentar tortura, matar e escapar da morte. A trama envolve um possivel resgate de José Antônio Primo de Rivera, líder dos falangistas, grupo que apóia Franco, mas é um tanto mais radical, à direita, e está preso em Alicante. O livro é curto. Lê-se facilmente em poucas horas. O leitor não precisa saber detalhes da guerra civil espanhola para acompanhar a narrativa. Soube que há pouco mais de um mês Pérez-Reverte lançou o segundo volume da série, "Eva", onde reecontraremos Falcó em mais aventuras. Dificil dizer se esse personagem cairá no gosto do grande público, a exemplo de Alatristre. A Espanha é um país em que as marcas das divisões ideológicas daquela época ainda são visíveis e reepercutem na política contemporânea. Nem só de hipocrisia vive uma sociedade (sabemos bem nós, brasileiros, aferrados hipocritamente até a morte às nossas mazelas, narrativas históricas tortas e tontas, mentiras públicas, vícios privados, auto-enganos e ilusões coroadas). Arre. Vamos em frente. Vale!
Registro #1247 (romances #329)
[início: 23/11/2017 - fim: 25/11/2017]
"Falcó", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2016), capa-dura 16x24,5 cm., 294 págs., ISBN: 978-84-204-1968-8

sábado, 9 de dezembro de 2017

free women, free men

Comprei esse livro ainda em abril, mas os serviços alfandegários brasileiros, ineficientes e canalhas como sabem ser, me fizeram recebê-lo apenas em julho. Em "Free Women, Free Men" encontramos 36 ensaios robustos, onde Camille Paglia apresenta sua visão bastante particular e provocadora sobre feminismo, sexo e gênero. Mais precisamente, encontramos no livro os três primeiros capítulos de seu livro mais contundente, "Personas Sexuais", de 1990; três transcrições de palestras ou conferências acadêmicas; três resenhas literárias; cinco transcrições de entrevistas; vinte e dois ensaios independentes, publicados originalmente em revistas e jornais americanos e ingleses. O conjunto também pode ser dividido cronologicamente, em dois grandes blocos: dezenove são textos relativamente antigos, dos anos 1990, associados a repercussão de "Personas Sexuais", e quatorze mais recentes, dos anos 2010. O leitor não precisa ler os ensaios do livro sequencialmente, na ordem em que foram editados. Há uma natural repetição de temas e informações, mas isso não chega a aborrecer o leitor. É inegável que cada um deles se defende sozinho e oferece um festival de associações ("Personas Sexuais" é imbatível, qualquer pessoa honesta intelectualmente que trabalhe com esses assuntos não pode furtar-se de lê-lo). Alguns ensaios são panfletos marcadamente políticos, mais agressivos, incisivos, categóricos; em outros o tom é mais professoral, acadêmico, frio, mas sem condescendência. Há vários ensaios em que Camille defende seus argumentos sobre política sexual, mídia e o papel das universidades como foro de discussão; noutros encontramos abordagens acadêmicas sobre a história do feminismo, estética, cultura pop, a história das lutas pelas liberdades civis nos Estados Unidos. No fundo seu tema principal não é exatamente o feminismo, a luta por igualdade de gênero, mas sim a cultura, a evolução da cultura como núcleo central de coesão entre seres humanos de diferentes lugares do planeta, origens étnicas e gêneros. É interessante como ela antecipa, nos artigos dos anos 1990, a ascensão de uma geração de acadêmicos dedicados aos temas de feminismo e gênero que não alcançaram uma formação adequada, fatalmente contaminados por retóricas foucaultianas, lacanianas, desconstrutivistas e marxistas. Segundo ela, sem perspectiva histórica, literária, antropológica e sem incorporar a realidade das diferenças biológicas entre homens e mulheres, qualquer debate ou pauta feminista está condenada ao fracasso, a discussão circular, estéril. Anotei uma miríade de argumentos e passagens divertidas, certamente polêmicas e explosivas, mas prefiro citar apenas duas, uma das antigas e outra bem recente: " What I represent is the essence of the Sixties, which is free thought and free speech. And a lot of people don't like it. A lot of people who are well-meaning on both sides of the political spectrum want to shut down free speech. And my mission is to be absolutely as painful as possible in every situation." (de uma palestra proferida no MIT, Massasshussets Institute of Technology, em 1991, num debate sobre a crise das universidades americanas) e "It is difficult to understand how a generation raised on the slapdash jumpiness of Twitter and texting will ever develop a logical, coherent, distinctive voice in writing and argumentation, And without strong books and essays as a permanent repository for new ideas, modern movements eventually sputter out for lack of continuity and rationale. Hasty, blathering blogging (without taking time for reflection and revision) is also degrading the general quality of prose writing." (de uma entrevista publicada em uma revista britânica, em 2014). Bom divertimento. Vale!
Registro #1246 (crônicas e ensaios #222)
[início: 12/08/2017 - fim: 07/11/2017]
"Free Women, Free Men: Sex, Gender, Feminism", Camille Paglia, New York: Pantheon Books / Penguin Random House, 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x21,5 cm., 319 págs., ISBN: 978-0-375-42477-9

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

a arte da ficção

Se no "Breve história da literatura", de John Sutherland, que registrei há poucos dias, acompanhamos a vertigem de 3000 anos de literatura condensadas em 300 páginas, em "A arte da ficção" somos apresentados às técnicas que condicionam e explicam a prosa ficcional (oká, um tanto menor é a pretensão de Lodge, mas os vastos limites das duas propostas jamais são alcançados). Sutherland e Lodge são contemporâneos, nascidos na Inglaterra, nos anos 1930. Ambos fizeram carreira acadêmica nas melhores universidades inglesas, Lodge, em Birmingham, Sutherland, em Londres. As edições originais dos dois livros aconteceram em momentos diferentes. Sutherland publicou bem recentemente seu portento sobre a história da literatura (talvez seja o caso de enfatizar que ele se concentra vividamente na literatura inglesa); Lodge, publicou nos anos 1990 o seu (e igualmente enfatiza os romances escritos em inglês em seus exemplos). Enfim, em "A arte da ficção" encontramos 50 breves comentários, 50 tópicos, sobre algum aspecto da arte ficcional, publicados originalmente nas páginas do jornal "The Independent on Sunday" (tratava-se de um contraponto a uma outra série, "Ars Poetica", dedicada aos aspectos gerais da arte poética, escritos pelo poeta James Fenton). Lodge fala de como se começa e como se termina um romance; como se escolhem os nomes dos livros e dos protagonistas; como se conduz a narrativa, se manipula o tempo, se experimenta, escolhe e enfatiza vozes; como as ferramentas retóricas e linguísticas se prestam ao exercício da ficção; como evoluiu essa nobre arte e ofício; quem são os teóricos relevantes; quais são os termos dominantes; o quê diferencia um romancista de um beletrista amador. O livro destina-se ao leitor comum (complicado é encontrar um leitor comum que aceite essa condição de alvo). O formato é prático: Lodge transcreve um trecho de um determinado livro e o usa para exemplificar um aspecto de uma das técnicas narrativas. Por vezes ele fala mais do enredo daquele livro que usou como exemplo, noutras o que se enfatiza é o conceito da técnica que explica aquele efeito. Estranhei alguns termos e palavras usados pelo tradutor. Too much theory, I suppose! Paciência (que não tive, já que não me preocupei em ir atrás do que mesmo pensavam Bakhtin, Todorov e outros tantos formalistas russos sobre esses assuntos). De qualquer forma, interessante. Bom divertimento. 
Registro #1245 (crônicas e ensaios #221)
[início: 19/11/2017 - fim: 30/11/2017]
"A arte da ficção", David Lodge, tradução de Guilherme da Silva Braga, Porto Alegre: editora LPM, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-254-1859-3 [edição original: The Art of Fiction (London: Secker and Warburg / Harvill Secker / Penguin Random House Group) 1992]

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

uma breve história da literatura

Escrito em uma linguagem direta, sem afetações e até bem humorada, esse pequeno livro pode ser utilizado por estudantes e jovens leitores para alcançarem uma visão panorâmica da literatura. Obviamente não é possível que o leitor encontre nele digressões aprofundadas sobre cada um dos temas, tendências ou autores que se espalham em mais de três mil anos de história literária, dos mitos e lendas transmitidas oralmente por nossos antepassados até a miríade de textos disponíveis hoje, acumulados digitalmente. John Sutherland é um especialista renomado, autor de livros acadêmicos em que faz crítica literária e biográfica (sobretudo de autores do período vitoriano). É professor emérito da Universidade de Londres (University College London, to be precise). Um leitor mais exigente reclamará do quão ligeiros são os comentários dedicados a seu autor favorito; pedagogos não irão gostar do esquematismo da proposta, da associação direta entre grandes impérios, grandes civilizações e alta literatura; especialistas em literaturas de línguas não inglesas rechaçarão com veemência a ausência de seus cânones; feministas, grupos étnicos ou autores filiados a algum dos infinitos nichos literários deste nosso século XXI sentir-se-ão no mínimo ofendidos. Entretanto nem tudo é literatura de língua inglesa no livro de Sutherland; Jane Austen só é citada menos vezes que Dickens; há um bocado de informação sobre literatura pós-colonial, realismo mágico latino-americano, autores orientais; e ele fala um bocado sobre a ausência de fronteiras literárias no mundo contemporâneo. Mas o que pode ser dito de um assunto tão vasto em um livro de apenas 300 páginas? O que realmente dá estofo ao livro é a qualidade da prosa de Sutherland. Ele deve/devia ser um notável professor, com capacidade de síntese e a rara habilidade de buscar em detalhes que parecem irrelevantes a exemplificação de conceito bastante complexos. Os quarenta capítulos são basicamente independentes, uma rápida consulta ao índice pode levar o leitor a um assunto específico. A maioria deles não trata de um autor em particular, mas sim de um tema, cronologicamente definido. Sutherland também enfatiza as transições dos hábitos de leitura; fala sobre o objeto livro, que nunca poderá ser melhorado, como já nos ensinou Umberto Eco; sobre aquilo que poderíamos ler em um mundo onde a oferta de títulos é, convenhamos, infinita. Trata-se de um sujeito otimista, que acredita no poder das ferramentas tecnológicas contemporâneas de recuperar algo dos primórdios da aventura humana, quando a literatura era uma coisa falada, contada ao redor de um fogo. Para ele essas tecnologias possibilitarão mais diálogo comunitário, a construção de novas narrativas globais, que darão conta do assombro que todos nós, homo sapiens, experimentamos desde as cavernas, por mais cínicos que aprendemos a ser. No site de sua editora (a Yale University Press), encontrei Sutherland a falar de seu livro num curto teaser: clica! Vale a pena conferir. Bom divertimento. 
Registro #1244 (crônicas e ensaios #220
[início: 12/11/2017 - fim: 17/11/2017]
"Uma breve história da literatura", John Sutherland, tradução de Rodrigo Breunig, Porto Alegre: editora LP&M, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 311 págs., ISBN: 978-85-254-3660-3 [edição original: A Little History of Literature (New Haven/Connecticut: Yale University Press) 2013]


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

a coleção privada de acácio nobre

"A coleção privada de Acácio Nobre" nasceu como peça de teatro, encenada em Lisboa, em 2010 (um trecho da peça pode ser visto aqui: clica!). Patrícia Portela, cenógrafa de formação, assinava sua criação e direção. Recentemente, a exemplo do que fez com outras peças suas, ela transformou aquele roteiro em um romance, publicado, quase simultaneamente, pela lisboeta Caminho, em 2016, e pela porto-alegrense Dublinense, em 2017. Cabe registrar o bom trabalho que nos últimos anos a Dublinense tem feito ao dedicar-se pela publicação de outros dois autores portugueses: José Luis Peixoto e Gonçalo Tavares. Como bem registra Reginaldo Pujol Filho nas orelhas do livro trata-se de um jogo, em que autora brinca com a ideia de ter achado um baú repleto de guardados de um sujeito excêntrico, supostamente multitalentoso, uma espécie de gênio da raça português hoje completamente esquecido, nascido em Lisboa na segunda metade do século XIX e que teria vivido mais de cem anos. Esse tipo de jogo criativo lembrou-me algo dos livros de Enrique Vila-Matas, sobretudo os mais antigos e experimentais, como "Historia abrevida de la literatura portátil", "París no se acaba nunca", "Una casa para siempre", por exemplo. A criação de Patrícia Portela elenca parte dos objetos encontrados no baú, transcreve algumas cartas, reproduz fotografias de objetos, desenhos, esquemas de quebra-cabeças. O romance reproduz também a transcrição de algumas entrevistas que a narradora/autora teria feito com uma musa inspiradora de Acácio, uma mulher chamada Alma. A proposta é curiosa. A ideia de que tudo o que um autor diga que seja verdade é absolutamente verdadeiro entre capa e contracapa de um livro, certamente válida. Entretanto o resultado me parece aquém desta ambição. Talvez, a exemplo de um outro livro que li recentemente, "Laços", de Domenico Starnone, o efeito produzido em um teatro seja mais impactante e eficiente que aquele que se alcança por meio das palavras, num livro. Enfim, nem todo mundo precisa gostar dos mesmo jogos. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1243 (romance #328)
[início: 08/11/2017 - fim: 10/11/2017]
"A coleção privada de Acácio Nobre", Patrícia Portela, Porto Alegre: editora Dublinense, 1a. edição (2017), brochura 13x19 cm., 224 págs., ISBN: 978-85-8318-099-9 [edição original: A colecção privada de Acácio Nobre (Lisboa: Editorial Caminho / Grupo Leya) 2016]

domingo, 26 de novembro de 2017

romeu e julieta

Talvez apenas menos conhecida que o "Hamlet", "Romeu e Julieta" é daquelas peças de Shakespeare que qualquer vivente pode dizer sem medo que leu, vastas são as referências, influências e marcas na cultura disponíveis até ao mais leniente e vagabundo dos leitores. Shakespeare, como usualmente fazia, quase não inventou nada. Ele baseou-se em tramas bastante conhecidas, de Ovídio a Dante, de Bocaccio a Bandello. A desse último, por sua vez, foi adaptada para o inglês por um sujeito chamado Arthur Brooke, ainda no início do século XVI, e talvez seja a versão mais próxima e disponível ao velho Shakespeare para engendrar a sua. Pouco importa. O genial das peças de Shakespeare é que as versões dele das tramas alheias sempre são as melhores, as mais seminais, as mais curiosamente lembradas e eufônicas. Don José Francisco Botelho, jovem tradutor, da melhor cepa possível dos bons tradutores brasileiros, publicou essa sua versão no final de 2016. Só recentemente tive chance de ler com calma seu portento. Em suas notas sobre a tradução ele dá conta de seus procedimentos, dos recursos poéticos e estilísticos de sua arte. Fala de sua preocupação com a impressão da velocidade da entonação das falas da peça, ajustando os decassílabos e a prosa poética do conjunto original às particularidades do português falado. Ele registra também fidelidade às palavras de Adrian Poole, clássico especialista em Shakespeare que assina um ótimo ensaio incluído na edição da Penguin Companhia. Faz isso sobretudo quando discute o ambíguo equilíbrio entre os tons trágico e cômico da peça e também na questão do controle da sensação da passagem do tempo que experimentamos ao lê-la (ou assistirmos uma montagem dela - a de Baz Luhrmann, Romeo+Juliet, é extravagante, porém digna, talvez seja a que eu mais goste). O amor é primo da morte (nos ensinou um dia Carlos Drummond de Andrade), mas no caso de Shakespeare o amor não vence a morte, apenas dá chance às duas enlutadas famílias rivais de Verona uma chance de reconciliação (mas sabemos, ai de nós, cínicos que hoje somos, da precariedade dessas iniciativas de louvor ou apreço derivadas de um ato funesto). A edição inclui um conjunto de notas assinadas por T. J. B. Spencer, conhecido especialista em Shakespeare, e outras assinadas por Botelho. Como sempre acontece nessas edições da Penguin, as notas dão alegria aos leitores que dispõe de tempo e disciplina, vontade de aprender. A tradução de Botelho é bem boa de se ler, acompanhamos suas soluções com alegria. O sujeito conhece e preza seu ofício. Acompanhamos os sucessos como quem ouve uma história já conhecida, porém contada por um novo vate, um novo bardo, um novo menestrel, dono de uma voz que agrada mais que outras. Com esse livro termino o pacote de três projetos shakespearianos aos quais dediquei-me esse ano. Roberto O'Shea ("Os dois primos nobres"), Lawrence Flores Pereira ("Otelo") e José Francisco Botelho são quase da mesma geração e estão produzindo portentos tradutórios das peças de Shakespeare num ritmo que assombra (Botelho já assinou um Julio César, que está nas livrarias; Lawrence prepara seu Rei Lear - ambos pela Penguin Companhia; e O´Shea, continuará suas traduções das peças tardias de Shakespeare?). Sorte nossa vivermos desse assombro. Evoé! Em tempo: Assim como registrei antes por aqui, ao falar das traduções de "Hamlet" e de"Otelo", lembrei-me ao ler essa tradução de "Romeu e Julieta" de meus tempos de espectador de teatro, de uma encenação que vi no meu tempo das cavernas, início dos anos 1980, no Teatro Anchieta do Sesc, ali próximo dos baixios da Consolação paulista, com o bom Antunes Filho assinando a direção e a jovenzita Giulia Gam, diáfana sob a lua, fazendo as vezes de Julieta (pouco importa quem fazia o papel de Romeu, claro, quem se lembraria dele?). Seriam as pudendas da jovem Giulia que vi em relance naquele dia, no escuro do teatro, ou seriam as da Fernanda Torres ou, ainda, da Júlia Lemmertz, numa montagem de Orlando, que vi no Teatro Municipal? O velho e necessário Alzheimer embaralha tudo e faz o corpo sonhar, talvez dormir (ou seria o contrário, seria outra peça, outras pudendas? Por quantas metamorfoses já passei?). Vale!
Registro #1242 (drama #13)
[início: 04/03/2017 - fim: 15/10/2017]
"Romeu e Julieta", William Shakespeare, tradução de José Francisco Botelho, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-8285-040-4 [edição original: first quarto, 1622; first folio, 1623; Romeo and Juliet (New Haven / Londres: Yale University Press) 2004]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

otelo

Em 2015 li a notável tradução do Hamlet engendrada por Lawrence Flores Pereira (que inclusive mereceu o prêmio Jabuti de melhor tradução, em 2016). No início deste ano foi lançado um novo portento do Lawrence, sua tradução do Otelo. Li o texto quando ainda era outono, em maio, mas deixei os elementos paratextuais para ler mais tarde. Aborrecido com a morte de meu pai, em junho, só retomei o volume recentemente, no início dessa úmida primavera. É certo que dedicamos tempo a leitura de livros como esse por conta do encantamento que o nome de Shakespeare evoca. Todavia, no caso das edições comentadas da Penguin Classics o conjunto de mimos que acompanham o texto da peça produzem múltiplas alegrias. O leitor encontra um ensaio longo do poeta W. H. Auden, "O curinga no baralho", já clássico, onde ele advoga a precedência de Iago sobre Otelo, disseca como bom professor e especialista que foi toda a trama, defendendo a ideia que a peça espelha nosso complexo mundo contemporâneo tão bem como espelhava a conturbada Inglaterra elisabetana. Lawrence oferece uma longa introdução, onde digressa sobre as circunstâncias da composição (mais próxima de 1601 ou mais próxima de 1604?); sobre as dificuldades de se manter isento na questão do ciúme evocada pela peça, como leitor ou como crítico; sobre as camadas de temas, detalhes estilísticos, alusões; sobre o protagonismo compartilhado entre Iago e Otelo; sobre a delicada questão racial que a nossos olhos contemporâneos ganha relevo, mas que seria até irrelevante no início do século XVII; fala das fontes primárias do texto original e do contexto de suas primeiras encenações. Ele também assina um conjunto de notas que esclarecem as passagens mais herméticas e suas escolhas, notas que merecem ser consultadas. E, em sua "Nota sobre a tradução", Lawrence fala da concepção e método de tradução de que se vale, dos contrastes estilísticos, registros, musicais e sonoros (ele os chama de "multidão de procedimentos envolvidos", cousa que não duvido nem um pouco);  explicita sua preocupação com os efeitos que podem ser produzidos num palco, numa encenação real, partindo-se de sua escolha de versos e rimas. Da peça nada falo. Dificilmente alguém a desconhece completamente, apesar de ser uma tolice furtar-se de lê-la ao menos uma vez na vida, coisa muito facilitada agora por essa notável tradução. Lembro-me sim de uma montagem que assisti, no início dos anos 1980, no solene Teatro de Cultura Artística paulista, com bom Juca de Oliveira no papel de Otelo e um quase sofrível Ney Latorraca no papel de Iago. A cenografia era assinada pelo grande Flávio Império, que era irmão de uma de minhas professoras no IFUSP, a Amélia Hamburger, sempre muito querida. A vida no interior do Rio Grande do Sul roubou-me esse hábito de ir ao teatro, paciência.
Registro #1241 (drama #12)
[início: 14/04/2017 - fim: 22/10/2017]
"Otelo", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2017), brochura 13x20 cm., 328 págs., ISBN: 978-85-8285-045-9 [edição original: The Tragedy of Othello, the Moor of Venice, (London) first quarto, 1622; first folio, 1623; E. A. J. Honigmann (org.), Hamlet, Bloomsbury Arden Shakespeare, second series (New York: Bloomsbury Publishing) 1996]

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

o fardo da nobreza

Se no volume anterior, "Enquanto eles dormiam", a ausência de crimes em Veneza permitiu ao comissário Guido Brunetti tempo livre o suficiente para fazer uma investigação quase privada, particular, eis que em "O fardo da nobreza" suas planejadas férias de primavera são canceladas quase na véspera da partida, devido a descoberta de um cadáver. A cidade está insuportável, já repleta de turistas; Paola, Chiara e Raffi não cancelam os dias de descanso e viajam para Bolzano, no sopé das Dolomitas; o crime nem é exatamente veneziano, pois o corpo foi encontrado na província de Belluno, longe dali, mas todos os comissários de lá já estão em férias ou impossibilitados de investigar. A trama é intrincada, envolve o colapso da URSS, a ascensão das máfias no leste europeu, a corrupção dos italianos, os hábitos das pessoas muito ricas e poderosas, a geopolítica estranha das universidades, questões de honra. Citações eruditas, sobretudo de Cícero, sobre questões morais e de Sófocles, extraídas de sua "Antígona", são mescladas a reflexões interessantes sobre a sedução da linguagem, sobre os benefícios da polidez e da firmeza, sobre nossos humores e o fato notável de sempre entendermos melhor como opera a psiquê dos outros, antes da nossa. A secretária Elettra tem papel fundamental nesta trama, mostra seus dotes de musa condutora, quase como uma Bond-girl, emprestando sua agilidade mental e redes de contatos a Brunetti. O sogro de Brunetti, Orazio Fallier, mostra-se um sujeito tão culto quanto poderoso, e, para surpresa de Brunetti, feliz de tê-lo como genro. A trama sutilmente remete à mitologia grega, exemplificando como uma nódoa familiar, um crime terrível, necessariamente se transmite geração a geração, implicando em punições e tragédias a todos os descendentes. Donna Leon desnuda um tanto a cumplicidade de algumas aristocráticas famílias venezianas com a perseguição sofrida por judeus italianos durante o período fascista, na primeira metade do século passado. Melhor livro que já li de Donna Leon. Mas sigamos, é tempo. Vale! 
Registro #1240 (romance policial #67)
[início: 14/07/2017 - fim: 02/09/2017]
"O fardo da nobreza (Brunetti #7)", Donna Leon, tradução de Carlos Alberto Bárbaro, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2012), brochura 12x18 cm., 249 págs., ISBN: 978-85-359-2056-7 [edição original: A noble radiance (London: Pan Books (Macmillan Publisher) 1998]

domingo, 19 de novembro de 2017

romping through gulliver's travels

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois de "Romping through Ulysses" e "Romping through Dubliners" (ambos sobre obras de James Joyce), "Romping through Dracula" (sobre Bram Stoker), "Romping through Dorian Gray" (sobre Oscar Wilde), eis que chego ao último volume da série, dedicado a Jonathan Swift, que satirizou como poucos sua época. Como nas anteriores, esta plaquete introduz ao leitor a ideia global sobre um livro importante do autor retratado, no caso, "As viagens de Gulliver". Cabe registrar que no caso dessa história de  Swift, a maioria dos leitores apenas lembra da viagem de Gulliver a Lilliput (e a sua rival, Blefuscu), onde ele é um gigante, pouco sabendo que existem também outras viagens tão surreais quanto a primeira. Em Lilliput os habitantes são minúsculos mas se imaginam importantíssimos. Em Brobdingnag, seu segundo naufrágio, Gulliver é minúsculo em comparação a seus habitantes (que não passam de antiquados senhores rurais, avessos ao progresso). Na terceira viagem Gulliver passa por Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbubdrib e Japão, terras utópicas que o leitor tende a desprezar, repleta de mágicos que se imaginam cientistas naturais, gente imortal que envelhece em contínua decomposição, artistas e matemáticos, entusiastas da tecnologia e exóticos governantes. Na última das viagens, Gulliver encontra os Houyhnhnms, cavalos filósofos, muito inteligentes, e Yahoos, humanóides selvagens, bárbaros. Ali não há cultura, tecnologia, literatura, instituições públicas (talvez fosse essa a desesperançada utopia selvagem de Swift). Além da descrição de cada episódio dessas quatro viagens de Gulliver o leitor encontra no livro um mapa/roteiro dos lugares de Dublin que guardam vestígios da passagem de Swift por lá, os marcos literários da cidade associados a ele: a casa onde nasceu; o  Trinity College, onde estudou; a catedral de são Patrick, da qual foi deão; a Marsh's Library; e também o local da igreja onde esta enterrado.  Além de fornecer uma curta biografia de um autor, os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Vamos a ver se um dia alcanço assistir ao vivo uma apresentação desse industrioso grupo. Evoé At it again, evoé. Sláinte!
Registro #1239 (livro de arte #21)
[início: 20/10/2017 - fim: 31/10/2017]
"Romping through Gulliver's Travels", Texto de James Moore e Jessica Peel-Yates, com contribuições de Maite López-Schröeder e Niall Laverty. Ilustrações de James Moore. Dublin: At it Again! (1a. edição) 2017, brochura 10,5x15,5 cm., 60 págs., ISBN: 978-0-9576559-9-7

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

laços

"Laços", de Domenico Starnone, parece brotar daquele aforismo - hoje um belo clichê, convenhamos - de Tolstói no Anna Kariênina: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". O leitor acompanha alguns episódios da vida de um casal italiano na segunda metade do século XX. Vanda e Aldo, ambos com vinte e poucos anos, casam-se nos inicio dos anos 1960. Após doze anos de casamento e dois filhos, Aldo tem um caso com uma mulher mais jovem e abandona a família. A primeira parte do livro, curta, reúne a série de cartas que por quatro anos Vanda envia a Aldo cobrando dele justificativas ou explicações (ilustrando um outro aforismo, agora do dramaturgo inglês William Congreve: ...nor hell a fury, like a woman scorned, ou seja, "não existe no inferno fúria comparável a de uma mulher desprezada"). Starnone poderia continuar sua história usando o artifício das cartas, mas antes que o leitor se aborreça (e inevitavelmente se aborreceria) ele nos leva a Itália contemporânea, já no início dos anos 2010. Vanda e Aldo são já septuagenários, se preparam para uns dias de férias de verão na praia. Como e porque eles voltaram a viver juntos o leitor só saberá depois de umas cinquenta páginas, muito embora já no final da primeira parte o leitor já imagina que o livro trata do destino desse casal que se separa. Nessa segunda parte acompanhamos a versão retrospectiva de Aldo, agora comentador daqueles fatos relatados nas cartas de Vanda. Todavia alguém já casado há cinquenta anos tem demasiadas camadas de memória para alcançar exatidão e validade nelas (falar sobre si mesmo sempre é inventar memórias e narrativas críveis). O livro é curto demais para que eu possa descrevê-lo mais sem roubar do leitor a descoberta dos mistérios contidos nele. "Laços" é bem escrito, a trama engenhosa e tem lá seu charme, mas nele, ao contrário da vida, tudo parece bem explicado demais, quase justificado, ou, ao menos, os personagens parecem se satisfazer com as explicações detalhadas que imaginam para seus atos. Talvez funcione melhor num palco, numa peça de teatro, onde tudo fica mais velado. Nunca havia lido nada de Starnone. Descobri que ele é bastante respeitado, já publicou mais de vinte romances, escreve roteiros para o cinema e televisão, foi professor, escreve regularmente em jornais italianos. Curioso. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1238 (romance #327) 
[início: 31/10/2017 - fim: 01/11/2017]
"Laços", Domenico Starnone, tradução de Maurício Dantas Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm, 144 págs. ISBN: 978-84-93828-08-9 [edição original: Lacci (Torino: Giulio Eunaudi Editore / Gruppo Mondadori) 2014]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

os dois primos nobres

"Os dois primos nobres" é a mais tardia das peças atribuídas a Shakespeare, e também uma daquelas ausentes do Primeiro Fólio, de 1623, volume em que se imaginava estivessem transcritas suas obras completas. Já registrei aqui sobre uma destas, "Cardênio", provavelmente escrita em 1612 ou 1613, e que perdeu-se completamente (no belo livro de Roger Chartier se aprende um bocado sobre Shakespeare e Cervantes). As demais ditas "peças tardias" são: "Péricles, príncipe de Tiro" (1607-1608), "O Conto do Inverno" (1609-1611), "Cimbeline, Rei da Britânia" (1610), "A tempestade" (1611) e "Henrique VIII" (1613). Outra particularidade dela é ter sido escrita em colaboração, no caso com John Fletcher, sujeito que o substituiria à frente dos negócios da King's Men. Sabe-se com certeza que a peca foi encenada em Blackfriers, em 1634. Bueno. Eu sabia vagamente algo do enredo desta peça, mas a conhecia por um outro título: "Os dois nobres parentes", como foi traduzida e publicada anteriormente (isso me causou um leve aborrecimento com uma tonta que atendeu-me na boa Livraria da Vila paulistana, mas essa é outra história). José Roberto O'Shea, respeitado tradutor, membro da távola haroldina, hoje professor da UFSC e responsável por esta nova versão, optou por explicitar o parentesco do título. Trata-se de uma tragicomédia, inspirada em um dos "Contos da Cantuaria", de Geoffrey Chaucer.  Alternam-se e se entrelaçam duas histórias: uma é uma narrativa medieval, de amor cavalheiresco, na qual dois homens, Arcite e Palamon, grandes amigos, os tais  primos do título, se apaixonam por uma mesma mulher, Emilia, irmã da amazona e rainha, Hipólita, senhora de Atenas. Os primos tornam-se rivais absolutos, a ponto de Teseu, senhor de Atenas, promover um combate entre ambos para decidir qual dos dois mereceria casar-se com a jovem. A segunda narrativa é a de uma jovem, filha do carcereiro que teve sob seus cuidados Arcite e Palamon. Essa jovem se apaixona até a loucura por Palomon, o ajuda a fugir da prisão, condenando o próprio pai com esse ato. O método da loucura dessa personagem lembra o de Ofélia, no Hamlet.  Os cinco atos da peça, que num curto prólogo diz-se poder ser encenada em duas horas, são bastante movimentados, fáceis de ler, muito embora, sejamos hoje cínicos demais para aceitar como corriqueiro e normal o comportamento moral dos dois jovens, que de amigos tornam-se rivais por um amor impossível e a loucura por amor da filha do carcereiro. Todavia os deuses do teatro são poderosos, a magia da encenação e o encantamento provocado pelos versos transportam o espectador para um mundo onde tudo é possível e válido. O'Shea acrescenta um conjunto robusto de notas ao texto traduzido. Elas ajudam o leitor a entender as passagens mais crípticas da peça. Ele justifica seus procedimentos tradutórios (versos decassílabos e partes em prosa), elenca suas fontes, orienta as interpretações possíveis que o leitor pode fazer. Cabe registrar que essa a quinta empreitada de tradução de Shakespeare de O'Shea (ele já traduziu "Antônio e Cleópatra", "Péricles, príncipe de Tiro", "O Conto do Inverno", "Cimbeline, Rei da Britânia" e "Hamlet"). Preparando-me para escrever esse registro encontrei informações sobre a Folger Shakespeare Library, biblioteca/santuário daqueles que pesquisam sobre Shakespeare. Don O'Shea deve ter se divertido um bocado por lá. A edição inclui uma bela introdução, assinada por Marlene Soares dos Santos. Em tempo: No curto epílogo que encerra a peça os autores perguntam se o conto foi bem contado, se contentou o espectador. Esse leitor, que fechou satisfeito o livro, responderia que sim, lá do escuro do teatro, ainda enfeitiçado. Vale!
Registro #1237 (drama #11)
[início: 26/10/2017 - fim: 31/10/2017]
"Os dois primos nobres", William Shakespeare e John Fletcher, tradução de José Roberto O'Shea, São Paulo: Editora Iluminuras, 1a. edição (2017), brochura 15x23 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-7321-560-1 [edição original: The two noble kinsmen (1613-1614) in-quarto 1634; (New York: Simon & Schuster's Washington Square Press) Folger Shakespeare Library, Barbara A. Mowat e Paul Werstine, editors, 1989]

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

a coisa mais próxima da vida

Há seis anos li o bom "How fiction works", de James Wood. Fiquei bastante impressionado com a capacidade de síntese do sujeito e com suas ideias sobre crítica literária. Ele é jornalista de formação, inglês, mas radicado há duas décadas nos Estados Unidos. É bastante respeitado - e claro - temido. Nunca fez pós-graduação, mas dá aula em Harvard. É colaborador recorrente de vários jornais e revistas literárias americanas e inglesas. Parte de sua notoriedade vem da forma como entende seu ofício, preferindo destacar o impacto estético, os sentimentos provocados, as epifanias e associações que o leitor infere diretamente das obras literárias, ao invés de utilizar aparatos acadêmicos, analíticos, ou submeter-se a comprometimentos ideológicos (esse tipo de crítica ideologicamente direcionada é muito comum, sobretudo em um país marginal, como o Brasil). Para ele a boa crítica é uma "redescrição apaixonada", o bom crítico alguém que lê os livros com o entusiasmo de quem os escreveu. Em "A coisa mais próxima da vida" estão reunidos quatro ensaios curtos, que originalmente foram proferidos como palestras, passaram pelo filtro da comunicação direta com o público. Três deles são de 2013 (parte das Mandel Lectures da Brandeis University) e uma de 2014 (em um evento do British Museum). O tom é bem pessoal. Wood fala sobretudo sobre os livros que leu e releu, que o ajudaram a desenvolver sua técnica crítica, mas também fala algo de sua biografia, de seus anos de formação, suas escolhas, sua lenta imersão no mundo dos livros. As três palestras Mandel da Brandeis podem ser acessadas livremente. Vale a pena assisti-las. Em "Por quê?" ele compara a experiência de ler ficção com a experiência de refletir sobre a morte de uma pessoa que conhecíamos bem. A vida inteira daquela pessoa é apenas parte de nossa memória, pois a pessoa não existe mais, parece inventada, assim como um personagem de ficção é apenas um capricho, fruto das escolhas estéticas e humor do autor. Em "Observação séria" Wood fala sobre o controle do tempo e dos detalhes que precisamos aprender a observar para alcançarmos compreender completamente uma história (e que os autores precisam aprender a produzir para tornar suas histórias críveis e interessantes, literariamente válidas). Em "Fazer uso de tudo" ele fala das diferenças entre a crítica literária acadêmica e as críticas práticas (selvagens, diria eu), valoriza o bom uso das metáforas, da elisão necessária tanto na produção artística quanto na crítica. Na última palestra, "Desabrigo secular", Wood fala ao público, inglês, de sua experiência de quase exílio nos Estados Unidos, de como vários bons autores (Sebald, Naipul, Coetzee, Kadaré) alcançaram reproduzir literariamente o estranhamento que é a compreensão de um mundo novo, não aquele confortável onde nascemos e nos criamos. Essa habilidade, a de integrar-se ao novo e sentir saudades do passado, é similar aquela que o leitor tem ao conhecer aos poucos o mundo literário de um livro novo que lê. Interessante. Mas é tempo de mudar de assunto, ir ao Shakespeare, aos portentos que Lawrence Pereira, José Francisco Botelho e José Roberto O'Shea traduziram recentemente.Vale!
Registro #1236 (crônicas e ensaios #219)
[início: 25/10/2017 - fim: 30/10/2017]
"A coisa mais próxima da vida", James Wood, tradução de Célia Euvaldo, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 14,5x23 cm., 125 págs., ISBN: 978-85-504-0480-6 [edição original: The nearest thing to life (New England/USA: Brandeis University Press) 2015]

terça-feira, 7 de novembro de 2017

valerian

"Valerian" é uma história em quadrinhos que começou a ser publicada no final dos anos 1960, na icônica revista francesa Pilote. Desde então a equipe de criação dessas histórias bem humoradas de ficção científica, coordenada por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, já produziu mais de vinte álbuns. Recentemente uma das histórias mais antigas, "O império de mil planetas", foi adaptado para o cinema, dirigido por Luc Bresson. Aproveitando o momento do lançamento dessa versão em filme a editora SESI-SP lançou dois volumes caprichados da edição integral das histórias de Valerian e sua companheira de aventuras Laureline. Nesse primeiro volume encontramos três histórias independentes: "Os maus sonhos", de 1967; "A cidade das águas movediças", de 1970 e "O império dos mil planetas", de 1971. O enredo das histórias segue um padrão narrativo. Valerian é um agente do espaço-tempo do século XXVIII, cujas missões envolvem basicamente evitar distorções na história da civilização, explorar mundos que possam fornecer matéria prima e energia, antecipar acontecimentos que possam prejudicar a idílica sociedade de seu tempo (na qual praticamente ninguém trabalha, usufruindo das benesses de um estado de bem estar social absoluto). O impacto visual do volume é mesmo algo poderoso. Certamente George Lucas pirateou um bocado de ideias e até enquadramentos inteiros que já estavam ali nas histórias de Christin e Mézières. Trata-se de experimentos de ficção científica, mas o foco é sempre no comportamento moral, no questionamento das ações dos protagonistas. Divertido mesmo. Por uns momentos voltei àqueles tardes vagabundas, onde o tempo parecia cansado e lento, que alternava a leitura de meus preciosos gibis com a dos livros do Monteiro Lobato, que recortava tirinhas dos jornais que meu pai sempre comprava (aos domingos havia tirinhas coloridas, mais aguardadas e disputadas). Cousas boas. Vale!
Registro #1235 (hq's, cartuns e mangás #66)
[início: 25/10/2017 - fim: 27/10/2017]
"Valerian Integral (volume #1)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 22,5x29 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-504-0279-6 [edição original: Valérian Intégrale - tome 1 (Paris: Dargaud) 1970]

sábado, 4 de novembro de 2017

enquanto eles dormiam

Depois das águas altas e do frio no volume anterior que li de Donna Leon (Acqua alta) eis que estamos agora na primavera. Brunetti investiga um caso não oficial, nas suas horas vagas, por sorte em um período sem crimes em Veneza. Só com o verão e os turistas os crimes voltarão à cidade. Uma jovem mulher, que costumava cuidar da mãe de Brunetti, condenada pela idade e pelo Alzheimer a viver em um asilo mantido por uma ordem religiosa, abandona os votos de monja e pede ajuda ao comissário, pois acredita que os anciãos daquele asilo estão sendo mortos e não morrendo por acaso. Brunetti e seus fieis comandados, Brunello e Vianello, sagazes e sedutores (primeira vez em que exibem seus talentos de investigadores independentes do chefe comissário) alcançam vencer a hipocrisia e demais práticas venais e condenáveis da igreja para chegarem a uma solução adequada para o problema da jovem ex-freira. A trama envolve o sempre complexo mercado imobiliário veneziano e o comportamento de inescrupulosos advogados que usam o direito e o abstrato conceito de justiça da população apenas para bem fazer suas negociatas e chicanas. Aprendemos algo mais sobre Brunetti. Sobre o fato dele ler os clássicos (Marco Aurélio, Tertuliano, Plínio) e conhecer bem a Bíblia. Acompanhamos sua surpresa ao descobrir a erudição e hábitos de leitura de sua sogra, a contessa Falier; sobre sua sagacidade ao trilhar caminho de segredos e mentiras que afetam o poder da igreja e de organizações pararreligiosas, como a Opus Dei. A secretaria Electra se mostra fundamental na trama. Certamente veremos mais cousas dela por aqui. Uns pedófilos, que sempre aparecem quando se fala da igreja cristã, acabam sendo punidos, mas os verdadeiros artífices de negociatas e crimes, as grandes ordens religiosas, a Opus Dei e a própria igreja, sempre serão preservados. Já disse como esses detalhes  me alegram quando leio os livros de Donna Leon. A engrenagem da vida é mais complexa do que os romances policiais comuns emulam. Nada pode ser totalmente resolvido na vida real, sempre haverá alguém prejudicado, um fato continuará nebuloso ou impune, uma certa pena jamais será aplicada. O direito é apenas um caro e lento exercício de enganação. Como um dos personagens do livro diz: "Os hipócritas nunca imaginam que os outros possam ser tão falsos quanto eles são". Só num país majoritariamente de indigentes mentais, como nesse nosso Brasil, questões de gênero e pedofilia são tratados com igual leniência e derrisão (no mundo da ficção de Donna Leon as pessoas são mais sérias e mais críveis). Mas não há porque se perder mais tempo com esse desgraçado pais. Vamos em frente. Mudemos de tema. 
Registro #1234 (romance policial #66)
[início: 18/08/2017 - fim: 24/08/2017]
"Enquanto eles dormiam (Brunetti #6)", Donna Leon, tradução de Carlos Alberto Bárbaro, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2010), brochura 12x18 cm., 288 págs., ISBN: 978-85-359-1779-6 [edição original: The death of faith, aka Quietly in their sleep (London: Pan Books (Macmillan Publisher) 1997]

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

o lobinho vermelho

Em São Paulo, após ver exposições no Centro Cultural FIESP, entre elas uma, excepcional, sobre "ready-made no Brasil", parei para descansar em uma livraria e encontrei essa bela edição de "O lobinho vermelho", assinada por Amélie Fléchais, jovem ilustradora francesa. Comprei pensando em presentear Victória, sobrinha querida, mas como as festas de final de ano ainda estão longe é óbvio que não deixei passar a oportunidade de lê-lo. Trata-se de uma adaptação livre do antigo conto de fadas, "O chapeuzinho vermelho", a conhecida história de Charles Perrault que também foi reescrita pelos irmãos Grimm e tantos outros. Os papéis não estão exatamente invertidos, como o título sugere; a história ganha em complexidade e matizes; os personagens são mais ambíguos; o desfecho, diferente das versões tradicionais (de qualquer forma sempre há diferenças substanciais entre elas). No início da proposta de Amélie o lobinho é instruído pela mãe para levar comida para sua avó loba, que é muito velhinha para caçar. Claro, a mãe adverte o lobinho que ele deveria evitar uma parte da floresta, coisa que ele, distraído, acaba não conseguindo fazer. Uma garota o encontra perdido na floresta e diz que pode ajudá-lo a encontrar o caminho. A partir daí duas narrativas diferentes se entrelaçam, se complementam, a da menina e a do lobinho. Mais não conto, para não roubar o prazer da descoberta do leitor. As ilustrações, também assinadas por Amélie, são muito bonitas, poderosas (O leitor curioso pode ver parte delas aqui: clica!). As metamorfoses que experimentam os personagens lembram as de Ovídio (a de Acteon, por exemplo). Cabe dizer que esse livro foi produzido por financiamento coletivo, em 2014. Parabéns aos envolvidos. Acho que a Victória vai gostar. Vale!
Registro #1233 (hq's, infanto-juvenil #44)
[início: 25/10/2017 - fim: 27/10/2017]
"O lobinho vermelho", Amélie Fléchais, tradução de Heloísa Jahn, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 19x27 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-504-0563-6 [edição original: Le petit loup rouge (Paris: Ankama) 2014]

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

fiesta al noroeste

Nessa pequena novela se conta uma história sobre o orgulho, a soberba, sobre a dificuldade que temos de entender todas as facetas da vida, sobretudo quando somos muito jovens e influenciáveis. Um titereiro mambembe, Dingo, ao passar próximo à uma cidadezinha do áspero e montanhoso noroeste espanhol (região das Astúrias, León, Cantabria, Galicia), onde nasceu, atropela por acidente uma criança e a mata. Forçado a responder pelo crime, ele pede ajuda a um velho amigo de infância, senhor das terras do lugar e homem poderoso, Juan Medinao. Trinta anos antes Dingo e Juan planejavam fugir juntos da cidade, mas Dingo traiu seu amigo e fugiu com as moedas de prata que acumulavam em segredo. O reencontro entre os dois provoca em Juan uma sucessão de lembranças, sobretudo sobre si, sua forma de agir e pensar, seus atos pregressos, o pai, a morte da mãe, sobre Pablo, um meio irmão seu, sobre o resultado de suas ações, suas culpas e ambições baldadas. Muito bem escrito, sem truques literários bestas e auto indulgência. Ana María Matute foi uma das mais respeitadas escritoras espanholas do século XX, fazia parte da Real Academia Española e recebeu vários prêmios literários importantes, inclusive o Cervantes, em 2010. "Fiesta al Noroeste" foi seu segundo livro publicado, no longínquo 1952. Acho que é o caso de procurar mais livros dela. Vale!
Registro #1232 (novela #70)
[início: 20/10/2017 - fim: 25/10/2017]
"Fiesta al Noroeste", Ana María Matute, Barcelona (España): Editorial Planeta (Ediciones del Destino / Austral Básicos), 1a. edição (2015), brochura 10x15 cm., 117 págs., ISBN: 978-84-233-4902-9 [edição original: Fiesta al Noroeste (Madrid: Afrodisio Aguado Editores Libreros) 1952]

terça-feira, 31 de outubro de 2017

em louvor da sombra

De Junichiro Tanizaki já havia lido quatro novelas reunidas nos volumes "A gata, um homem e duas mulheres" e "A vida secreta do senhor de Musashi". Recentemente encontrei esse curto ensaio dele, publicado originalmente em 1933. Tanizaki discorre sobre estética, sobre os contrastes entre luz e sombra, exemplificando suas ideias por meio da arquitetura, da culinária, do artesanato, da jardinagem, cores, vestuário e maquiagem utilizados no teatro Nô, do tom da pele das pessoas (entre tantos outros exemplos). Ele contrasta também a cultura oriental e a ocidental, ou aquilo que ele entende por cultura ocidental. Seu elogio (seu louvor) é por objetos que guardem vestígios da passagem do tempo: o piso cujos veios e nós se desgastam pelo uso seletivo que fazemos dos espaços; os utensílios de cozinha que engorduram e enferrujam, escurecendo-se; os painéis que esmaecem pela ação do sol. Ele fala também do brilho perolado que um grão de arroz deve ter se corretamente preparado ("Que japonês digno desse nome não se comove quando, removida de golpe a tampa da terrina, vê o cálido vapor subir do arroz recém preparado, cada grão reluzir como pérola em gota?", diz ele) e das vantagens da madeira laqueada chinesa sobre a porcelana ocidental. Fiquei tão impressionado que fui atrás de informações sobre o urushi-e, a técnica milenar japonesa de laqueamento. Que beleza. Em suas reflexões Tanizaki lembra que no passado os ambientes eram pouco iluminados, sempre imersos na fraca e bruxuleante luz produzida por velas. O efeito da pouca luz nos detalhes dourados e reflexivos produziam uma espécie de encantamento, seja nos ambientes domésticos, nas recepções públicas ou no teatro. Em algum momento ele se pergunta se seria possível estender os princípios estéticos japoneses para a ciência, que naturalmente seria uma ciência diferente da ocidental, hegemônica e utilitarista, prática. De certa maneira ele antecipa o fascínio japonês pelo neon, a inundação de luz que associamos hoje às grandes cidades japonesas, em contraste com a escuridão e o silêncio dos jardins e dos templos ancestrais. Ele sabe que não há como retardar os avanços tecnológicos, conter a modernidade, mas sabe que a força da cultura japonesa prevalecerá sutilmente a qualquer gadgets que seja inventado (essa palavra obviamente ele não antecipa, mas sim defende a ideia de que qualquer técnica ou instrumento possa ser "japonizado", adaptado às tradições japonesas). Ensaio muito bom, para se ler com calma, num dia de inverno, ouvindo Koto e Shamisen. Em algum momento lembrei-me de um restaurante japonês muito antigo que frequentava no início dos anos 1980, ali no final da Cardeal Arcoverde, bem próximo ao largo da batata. Ficava no segundo piso, subíamos por uma escada estreita, bem gasta. O proprietário e sushi-man era um idoso senhor, de rosto com uma miríade de marcas de varíola, que aparentava ser forte, mal falava o português, atendia os clientes em silêncio, oferecendo chá fumegante para quem se sentava no balcão. Era um restaurante bem escuro mesmo, repleto de antigos calendários e objetos empoeirados. A luz era filtrada por painéis e por alguma mágica mal ouvíamos o alarido da rua, dos ônibus que continuamente fluíam abaixo de nós. Um dia levei lá meu orientador, o Frank Missell, e ele lembrou de uns velhos restaurantes japoneses de Cambridge e Boston, que frequentava quando era estudante. Aquele foi sim um dia especial. O velho Tanizaki soube mesmo neste ensaio fixar o que experimentamos quando recebemos a epifania da luz e da sombra. Kampai!
Registro #1231 (crônicas e ensaios #218)
[início: 01/10/2017 - fim: 17/10/2017]
"Em louvor da sombra", Junichiro Tanizaki, tradução de Leiko Gotada, São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 72 págs., ISBN: 978-85-8285-059-6 [edição original: In'ei raisan 陰翳礼讃 (Tokyo 1933]

domingo, 29 de outubro de 2017

dicas da imensidão

De Margaret Atwood só havia lido um pequeno mas potente livro, "A Odisséia de Penélope", há mais de dez anos. Semanas atrás, por conta da agitação que sempre antecede a divulgação do prêmio Nobel de literatura, resolvi ler algo dela. Atwood está sempre presente nas listas de favoritos de uns anos para cá, mas, já se sabe, ganhou um outro favorito, Kazuo Ishiguro. Em "Dicas da imensidão" estão reunidos dez contos. São histórias realistas, que demonstram uma curiosidade por um certo tipo de pessoas, aquelas que viveram uma vida agitada, típica dos subúrbios de classe média, com relacionamentos, tempos de estudo  e de trabalho, eventualmente filhos e proezas, talvez menos sucessos que aborrecimentos, mas sempre não exatamente da forma com que sonharam em algum momento prévio de suas vidas. Os personagens são professores, advogados, jornalistas, gente de mundo da arte e da cultura, que olham para o passado e tentam encaixar uma narrativa para a vida que viveram e irão viver. As histórias acontecem quase sempre na região de Toronto, no Canadá, mas os personagens ora viajam para a Inglaterra, ora cruzam a fronteira próxima dos Estados Unidos e passam um tempo por lá. Os recortes de vida que Atwood apresenta ao leitor pertencem quase sempre ao período que vai da Segunda Grande Guerra até meados dos anos 1980. Os fatos históricos deste período, bem como as ações de pessoas reais até são citados vez ou outra, mas apenas incidentalmente, o que importa para o narrador dos contos é o impacto destes fatos e ações nos personagens ali inventados. Nos contos quase sempre é sobre uma mulher que se narra, mulheres geralmente fortes, emancipadas, seguras de si, mas que trazem no corpo certas feridas, vestígios de seus combates, sabem que a ausência de uma amiga que morreu, dos filhos que cresceram, das paixões que se foram é uma ausência que não será roubada delas, uma ausência que as alimentará no futuro. Quando um homem é o protagonista certo da história trata-se de um farrapo humano, um tolo ou um canalha. Mas o livro não é sexista, o tom é sempre claro, o leitor reconhece facilmente a verossimilhança daqueles personagens, pobres homo sapiens contemporâneos nossos. Os contos realmente são bem escritos. Interessante mesmo, mas vamos em frente.
Registro #1230 (contos #144)
[início: 01/10/2017 - fim: 16/10/2017]
"Dicas da imensidão", Margaret Atwood, tradução de Ana Deiró, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 238 págs., ISBN: 978-85-325-2991-6 [edição original: Wilderness tips (Toronto: McClelland & Stewart / Penguin Random House Canada) 1991]

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

pode não ser o que parece

"Pode não ser o que parece" deve algo ao Freaknomics, livro de sucesso popular sobre economia dos anos 2000, assinado por Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, mas tem predicados suficientes para ganhar sozinho seu espaço. Samy Dana e Sérgio Almeida são dois jovens e respeitados professores universitários, navegantes no mundo áspero das finanças, negócios, consultorias, educação e jornalismo, sempre fazendo uso de teorias econômicas (se é que elas se adaptam à realidade bizarra deste nosso Brasil). O livro deles discute alguns casos onde as escolhas que fazemos em nosso dia a dia, tanto aquelas em grande escala quanto aquelas de pouco valor, escondem na verdade fundamentos econômicos bem conhecidos, ou ao menos bastante estudados por pesquisadores atualmente. Eles alcançam fazer isso fazendo uso de linguagem simples e sem malabarismos teóricos impenetráveis a leigos. São apenas dez casos, dez propostas para argumentação. Primeiro um assunto é brevemente apresentado e então progressivamente discutido, num método socrático (mas sem diálogos). Funciona bem. Os temas são variados (como a vida, claro). Eles fazem considerações sobre drogas e regulação; sobre escolhas afetivas; sobre a educação dos filhos; a busca do santo graal da felicidade; a razão de termos amigos; o auto entendimento do que seja sucesso; a função do ambiente - agentes sociais e acasos naturais - em nossas ações; a capilaridade da opinião de terceiros, através das mídias sociais, na validação de nossos atos; sobre nossa condição humana, que intui, racionaliza, acerta, erra, se culpa e sublima, num "Nec spe nec metu" às avessas; sobre como somos competitivos e colaborativos, como alternamos grandeza e miséria (palavras minhas, não deles, bem mais otimistas e menos cínicos do que eu). Assim como no livro de Levitt e Dubner as argumentações de Dana e Almeida não são achismos simpáticos, opiniões validadas por egotrips e redes ideológicas, mas sim fruto de consolidado entendimento acadêmico sobre os temas. As referências bibliográficas estão ali no final do livro. São 75 dignos papers, mas eu duvido que 1% dos leitores leigos do livro tenham interesse de ir adiante e lê-los (alto lá!, novamente aqui é meu irascível humor falando). Livro fundamental para quem queira entender melhor o processo de tomada de decisões que fazemos cotidianamente (pois aqui é Brasil, pôrra!). Vale!
Registro #1229 (crônicas e ensaios #217)
[início: 20/10/2017 - fim: 25/10/2017]
"Pode não ser o que parece: o que traz felicidade, com quem se casar, quais amigos ter ou como a ciência ajuda você a tomar as melhores decisões", Samy Dana e Sérgio Almeida, Rio de Janeiro: Objetiva / Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 175 págs., ISBN: 978-85-470-0047-9

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

antiboi

"Antiboi" reúne parte da produção poética mais recente de Ricardo Aleixo, engendrada entre 2013 e 2017. Digo "parte de sua produção" pois há cousas dele que só sabe quem o vê performando em um evento, quem alcança um vídeo de uma apresentação dele, quem participa de uma aulaoficina no Lira, seu laboratório de criação e pesquisa. Talvez um dia os gadgets tecnológicos possibilitarão o registro também desta sua faceta artística, mas por enquanto quem vive longe da rota de apresentações do Aleixo tem que se contentar com a obra física, aquilo que resta impresso, disponível num livro. Pois "Antiboi" reúne 33 poemas. A grande maioria é de propostas curtas, sintéticas, não exatamente crípticas, mas que cobram do leitor um esforço para entender as camadas no palimpsesto de signos, conceitos, ironias e jogo verbal. Uns poucos poemas são mais longos, incapazes de se reduzir àquela fórmula de concretude máxima dos demais e se esparramam por duas ou mais laudas, como se quisessem fazer-se entender melhor. Nestes o leitor encontra o Aleixo mais reflexivo, que se deixa navegar. O conjunto de poemas espelha preocupações ora políticas e ora afetivas. O sujeito vê o mundo, o denuncia e confronta, radicaliza num embate que sabe ser necessário. Todavia, se faz da poesia ferramenta de luta e provocação, não se esquece do homem que vive uma vida plena, que tem uma história, uma memória rica de ensinamentos familiares, que experimenta a benquerença, não se embrutece, como aconteceu com Fafner, por exemplo, naquela mitologia antiga. Alguns dos poemas curtos funcionam como statements, declarações, aforismos, gritos de rua, plataformas. Outros conjuram carinho e respeito a pessoas queridas, figuras públicas, como num tríptico sobre Milton Nascimento, Elza Soares e Luiz Melodia, ou anônimas, de seu círculo familiar e de amizades. O livro inclui um ensaio curto de Fábio Belo, que analisa certas implicações estéticas dos poemas à luz da psicanálise e fala sobre Antiboi como significante de resistência, de resistência ativa, que supera obstáculos. Interessante. E vamos em frente. Em tempo: dos demais livros dele que li deixei registros, então  clica!.
Registro #1230 (poesia #89) 
[início: 10/10/2017 - fim: 13/10/2017]
"Antiboi", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: editora Crisálida, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-87961-87-7

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

dicionário do diabo

Conhecia esse "Dicionário do diabo" apenas por citações de terceiros, comentários feitos em revistas literárias e artigos de jornais antigos (textos do Paulo Francis, do Tarso de Castro, do Ruy Castro, do Arthur Piza, por exemplo, que lia ainda nos anos 1970). A Carambaia publicou essa edição em novembro do ano passado, mas foi apenas em março que consegui meu exemplar (o de numero 794 de uma edição de mil exemplares, adoro esses mimos paratextuais das editoras que valorizam o produto que vendem). Fiquei com o volume sempre à mão por meses, consultando os verbetes ao acaso. Afinal, não se trata de um livro para se ler de um só fôlego, de capa a capa, sem interrupções. É divertido abri-lo aleatoriamente e encontrar nele, um verbete, um aforismo, que parece oferecer a solução para os aborrecimentos do dia. Ambrose Bierce escreveu-o ao longo de muitos anos, talvez ainda no inicio dos anos 1870, comprovadamente na revista "The Wasp", da qual foi editor, até uma primeira versão em livro, em 1906, ainda chamado "Dicionário do cínico", e depois chegar a versão definitiva, em 1911, já como "Dicionário do diabo". O livro inclui verbetes, de A a Z, que têm sempre um tom aforístico e também poemas. Bierce era um mestre da ironia e os verbetes registram isso muito bem. Nada é venerável o suficiente para não ser achincalhado por ele. A edição é belíssima. O projeto gráfico inverte as cores das páginas e das letras, dando ao livro um aspecto solene e soturno (uma galhofa extra, compatível com o espírito do livro). Divertido. 
Registro #1227 (aforismos #9) 
[início: 13/04/2017 - fim: 11/10/2017]
"O dicionário do diabo", Ambrose Bierce, tradução de Rogério W. Galindo, São Paulo: Editora Carambaia, 1a. edição (2016), capa-dura 13,5x19 cm, 306 págs. ISBN: 978-85-69002-20-8 [edição original: The Devil's Dictionary (London: Arthur F. Bird) 1906]

sábado, 21 de outubro de 2017

minha estrada real

Paulo Mendes reúne em "Minha Estrada Real" o registro detalhado de sua experiência em uma de suas aventuras ciclísticas, que ele chama de cicloviagens. Como ele mesmo diz "Foram 1.860 km bem pedalados, boa parte por estradas de terra. Segui a Estrada Real, mas fiz desvios e ajustes da forma que pensei ser melhor e mais interessante". Portanto neste livro encontramos o relato dos quarenta e cinco dias e dos 1.860 Km entre o aeroporto de Confins, em Minas Gerais e o aeroporto de Campinas, em São Paulo. Ele vai de Confins a Diamantina, de lá para Ouro Preto, segue o Caminho no Ouro até Paraty e de lá sobe a Serra da Mantiqueira até Campinas. Boa parte do trajeto  percorre essas trilhas da Estrada Real, que descobri agora ser a maior rota turística do Brasil desta natureza, com infraestrutura adequada, pousadas bem identificadas, restaurantes, cartografia, roteiros e pacotes de viagem muito bem organizados. Milhares de turistas, muitos deles estrangeiros, aventuram-se por ali há tempos. Como é grande e surpreendente esse Brasil. Paulo cruza os montes míticos da Serra do Cipó, da Serra do Caraça (lembrei do Pedro Nava, claro), da Serra de Carrancas, da Serra da Mantiqueira, da Serra da Bocaina, da Serra do Mar. Quase sempre ele passa apenas por vilarejos pequenos, de dois, três mil habitantes, evitando quando possível as grandes cidades e as estradas muito movimentadas, asfaltadas. Paulo é um ciclista experiente, já fez várias outras longas viagens (e as registrou em blogs sempre muito bons), sabe dos segredos da preparação, do condicionamento físico, de como é estar o menos só possível que é estar a sós consigo mesmo (como já disse um dia Catão, ensinou-nos Hannah Arendt). Essa sua viagem pela Estrada Real registrada no livro pode ser acompanhada ipsis litteris no blog "Aventuras de Bicicleta", com a vantagem que o leitor ter lá a disposição um conjunto enorme de fotografias que ilustram os assombros dele. Paulo fala de seus avanços diários, do tipo de terreno que encontra, dos animais que fotografa, do dinheiro que gasta, das pousadas em que se hospeda, da gastronomia mineira, do linguajar das gentes e das cervejas que toma, mas sua boa prosa se destaca no registro das pessoas com quem conversa, da usual generosidade do interlocutores, das trocas de experiências, da segurança absoluta que sentiu em todo o trajeto. Esse livro me lembrou imediatamente a experiência de Robert Louis Stevenson nas Cèvennes e as histórias de viagem de Josep Pla. Vale a pena ler também sua boa prosa e ver suas impressionantes fotografias das outras cicloviagens: por quatro países europeus (em 2015, e que ele publicou em um livro eletrônico pela Amazon, nas versões em português e em inglês); ao litoral do nordeste brasileiro (em 2016) e a mais recente, recém terminada, pelo centro e sul da Itália (em 2017). O Paulo também mantém um blog de registros literários (o sujeito sabe mesmo surpreender), o Kindle Babel. Evoé Paulo, evoé! Beleza acompanhar tuas aventuras. Que texto bem escrito. Grande abraço. 
Registro #1226 (crônicas e ensaios #216) 
[início: 09/10/2017 - fim: 14/10/2017]
"Minha Estrada Real: Diário de Viagem", Paulo Mendes, Recife:Editora Muribara (Cartonera Aberta), 1a. edição (2017), Cartonera 15,5x21 cm, 144 págs., sem ISBN

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

a idolatria poética

"A idolatria poética ou a febre de imagens" é um texto experimental de Sérgio Medeiros. Trata-se de um poema - ou de vários livros justapostos - que flerta(m) com o drama, uma provocação aos sentidos, uma legítima proposta literária, uma reinvenção dadaísta, uma inventiva forma narrativa, um jogo non-sense, tudo isso e mais um pouco. Li esse livro quase simultaneamente ao "Graal", de Haroldo de Campos, que já registrei aqui e com o "Antiboi", de Ricardo Aleixo, que em breve registrarei. Haroldo de Campos aparece citado por Sergio em uma curta passagem, como o sujeito que em Nova York perdeu um caderno de poemas, mas o recuperou, por sorte. Já os vários narradores de "idolatria poética", sujeitos obsessivos, temerosos de perderem seus cadernos de notas, cadernos em que anotam aquilo que chamam descritos, esperam a partir deles produzir um texto, uma narrativa, um livro, toda uma obra. O amor excessivo pelo que capturam com olhos e ouvidos e que plasmam em letras, palavras, narrativas, bem como o desejo de absorver toda a poesia da vida de seu entorno e a vertigem das imagens que pululam numa miríade de associações parece intoxicar esses narradores (sempre identificados como idólatras, numerados 1, 2, 3, e assim por diante, até um apostólico 12 final). Esses idólatras/narradores fingem estabelecer diálogos, concentrados sim em seus projetos individuais de escritura. Entre os diálogos encontramos três "livros rêmora", que correspondem a excertos que se grudam ao veio poético principal, como as rêmoras se grudam ao corpo de seus hospedeiros naturais, os tubarões. São "livros Barnacle", diria um cínico joyceano da gema. Outros livros do autor, Sergio Medeiros, se metamorfoseiam pelo poema, cobrando espaço, se autopoetanto um tanto. Entendo esses livros como o resultado do olhar febril de um autor. Um autor/narrador que, acamado um dia em sua casa na praia, ao invés de contemplar, como rotineiramente faz, apenas escunas e canoas ao longe,  vê desta vez pela janela de seu quarto os costumes e comportamento pernóstico de um grupo de turistas que alugou um apartamento próximo. Esses turistas escancaram suas misérias, cabotinos que são, mentem sobre literatura e viagens, dão engulhos ao autor, que se vinga incorporando-os à trama, tentando dar nexo naquilo tudo, deixando sua mente viajar. Sabe-se lá! Os experimentos originais e vanguardistas do Sérgio sempre provocam o leitor. O convite para o entendimento resta impresso, cabe a cada leitor trilhar sozinho essa aventura da linguagem. Whither? Para onde? Vamos a ver o que o Sérgio nos oferecerá na sequência.
Registro #1225 (poesia #88) 
[início: 13/09/2017 - fim: 08/10/2017]
"A idolatria poética ou a febre de imagens", Sérgio Medeiros, São Paulo: Editora Iluminuras, 1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85-7321-565-6