domingo, 20 de agosto de 2017

fraturas de relações amorosas

Acho que foi o Weaver Lima quem me falou do Cláudio Portella, mas não estou certo. Será que inventei uma amizade entre eles apenas pelo fato de ambos serem de Fortaleza e da mesma geração? Não sei dizer. De qualquer forma, um dia comprei esse "Fraturas de relações amorosas" e deixei-o numa pilha de guardados para ler mais tarde. Esqueci-me do livro, claro, mas reencontrei-o por acaso no mês passado, quando tirei uns dias para só viajar e ler, sem aborrecimentos. Trata-se de uma narrativa experimental, um monólogo teatral, um jogo dramático. Vou identificar o livro aqui nestes registros como romance, mas talvez o Portella o classifique de outra forma. São 417 cantos curtos, numerados em algarismos romanos, onde se faz um censo dos dias do relacionamento entre dois sujeitos, das metamorfoses pelas quais passam seus corpos, das facetas do amor entre eles. O narrador (Felipe) vive amasiado com um travesti, Marcelo, que depois torna-se Cassandra. Entretanto Felipe também vive com uma mulher, Aparecida, com que tem um filho, que em algum momento morrerá. Marcelo não tem ciúme de Aparecida ou das outras mulheres com quem Felipe se relaciona, mas não suporta a ideia de que ele se envolva com um outro travesti. O narrador a quem Portella dá voz não tem pudor, diz como Felipe e Marcelo fazem sexo e amam, afinal sexo e amor são o sal da vida, precisam ser praticados para que a vida tenha sentido. O narrador conta sem medo sua odisseia particular, se desnuda, expõe-se, faz uma autoanálise selvagem de si e de seus atos, garimpa sua memória e a mistura com aquilo que parece inventar. Seu monólogo é uma forma de suportar os desastres desta vida. No livro não há julgamento, cabotinismo, hipocrisia, moralismos bestas. Apenas uma realidade lírica. No mundo selvagem, fragmentado e doido que o Portella nos apresenta, reinam sim o amor e a vontade. Sujeito curioso esse Portella. Há outros livros dele por aí. Vou procurar. 
Registro #1204 (romance #324)
[início: 06/06/2017 - fim: 02/08/2017]
"Fraturas de relações amorosas", Cláudio Portella, Fortaleza: Edições CP, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-420-0767-1

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

solidão e outras companhias

Com esse seu "Solidão e outras companhias", o jovem jornalista Márwio Câmara foi finalista de um prêmio literário fluminense no ano passado. Recentemente  alcançou ser editado pela boa Oito e meio. São treze contos, quase todos bem curtos, mas suficientemente bem escritos para que Márwio mostre seu domínio do ofício. Os contos gravitam o mundo da cultura, notadamente em suas expressões mundanas, da literatura, da música, do cinema. Todos os narradores, homens ou mulheres, têm ambições literárias, projetos de ficção, refletem sobre o processo e as técnicas de construção dos livros. Num dos contos ("Luz nas pupilas") encontramos uma boa e original variante daquele aforismo de Chuang-Tzu, em que o filósofo se pergunta se sonhou ser uma borboleta ou é afinal uma borboleta que sonha ser homem. Similarmente, todos os contos podem ser lidos como histórias que um autor inventa (histórias que de certa forma acaba descartando, abandonando, por preciosismo) ou fragmentos da vida de um autor que ama a literatura e experimenta na ficção uma espécie de fuga da realidade. As histórias tratam também de relações familiares, do tédio na vida, da educação sentimental, do cotidiano dos jovens universitários que estudam ou tem trabalhos provisórios. Mesmo quando Márwio flerta com clichês (memórias de amantes em Paris, a musa literária travesti, o sexo acrobático, a história ouvida do taxista, o consultório de psicanálise como palco) ele se safa bem e salva muito bem os contos. Ojo, esse é um jovem autor que vale a pena acompanhar. Vale.
Registro #1203 (contos #139)
[inicio: 15/07/2017 - fim: 30/07/2017]
"Solidão e outras companhias", Márwio Câmara, Rio de Janeiro: editora Oito e meio, 1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm., 93 págs., ISBN: 978-85-5547-043-1

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

os prazeres dos lugares inóspitos

Esse livro faz parte da boa coleção da Relógio D'Água dedicada a relatos de viagem. Foram publicados já uns quinze volumes, dos quais registrei aqui apenas dois: "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, e "Veneza: Um interior", de Javier Marías. Neste estão reunidos dois textos de Robert Louis Stevenson, o conhecido autor de "A ilha do tesouro" e de "O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde". O primeiro texto é o ensaio que dá nome ao livro, "Os prazeres dos lugares inóspitos", publicado originalmente num jornal escocês, em 1874. O segundo é um relato de viagem propriamente dito, "Viagens com uma burra pelas Cévennes", publicado em livro em 1879. Se no ensaio o leitor acompanha reflexões e argumentos teóricos, derivados de experiências de viagem e do entendimento prático da solidão dos viajantes, no segundo encontramos algo menos cerebral, algo muito vívido, já que se tratam das transcrições de um diário de viagem. No ensaio Stevenson propõe um paradoxo estóico: para ele qualquer lugar é suficiente bom para nele habitarmos, mas apenas em uns poucos alcançamos passar horas realmente agradáveis. Ele fala da quase impossibilidade de explicar a alguém o prazer das viagens. Ora é apenas o conforto de uma sombra que marca todo um conjunto de sensações, ora as epifanias chegam por conta de uma paisagem ordinária, comum, dos vapores de uma torta recém preparada, do som difuso do voo dos pássaros, do crespo e sombrio mar ou de nossa imaginação, que teima em provocar associações sem fim entre a paisagem e nosso mundo interior, nosso continuamente mutável estado de espírito. No relato da viagem pela Cévennes, região montanhosa da parte sul do maciço central francês, ao norte de Montpellier, acompanhamos doze dias de aventuras de Stevenson. Ele não era exatamente jovem na época deste passeio, início do outono de 1878 (tinha já quase trinta anos). Cévennes é conhecida por ter sido palco de uma importante rebelião de protestantes calvinistas no início do século XVIII, a dos Camisards. Exatamente por isso boa parte das reflexões de Stevenson contrasta os hábitos católicos e protestantes, assim como a geografia acidentada daquele lugar e de sua Escócia natal. Nos doze dias de viagem, Stevenson percorre cerca de 200 Km, de Le Puy-en-Velay a Saint-Jean-du-Gard, quase sempre rumo ao sul, acompanhado de uma burra, Modestine, que tem um papel relevante nas histórias, dada a inaptidão de Stevenson como condutor de animais. O ambicioso projeto de Stevenson é "uma aventura puramente descomprometida, tal como aquela dos viajantes heroicos dos primórdios", que oferecesse a ele a experiência de "encontrar-me sem saber orientar-me, tão pouco familiarizado com o que me rodeasse como o primeiro homem na terra, qual náufrago explorando um território". Pioneiro do que hoje chamamos de camping selvagem, Stevenson percorre colinas e vales, frequentemente longe dos vilarejos, perde-se e retorna às trilhas do lugar, testa a confiança e desconfiança dos habitantes, pouco acostumados a forasteiros que não fossem vendedores (ele sempre se apresenta como um "autor"). A maioria das noite ele dorme no campo, mesmo quando venta forte ou chove. Em algumas encontra abrigo em estalagens e em um monastério trapista. O registro de Stevenson lembrou-me de dois outros diários de viagem que li recentemente: o de Heine em sua "Viagem ao Harz" e os de Josep Pla, pela catalunha, em seus "Cartas de lejos", "Cinco historias del mar", e pela Itália no "Cartas de Itália". Interessante mesmo.
Registro #1202 (crônicas e ensaios #213)
[início: 25/07/2017 -  fim: 28/07/2017]
"Os prazeres dos lugares inóspitos", Robert Louis Stevenson, tradução de Frederico Pereira, Lisboa: Relógio D'Água Editores (coleção Viagens), 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 169 págs., ISBN: 978-989-641-651-4 [edição original: On the Enjoyment of Unpleasant Places (Edinburgh: Portfolio) 1874; Travels with a Donkey in the Cévennes 1879]

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

acre

Flanando por São Paulo nestes dias de intervalo entre semestres letivos, eis que soube do lançamento de "Acre", segundo romance de Lucrecia Zappi e um dos primeiros livros editados pela recém fundada todavia, spin-off da cia das letras, digamos assim. A sessão de autógrafos do livro, lá na boa livraria da vila (madalena), foi precedida por um bate papo rápido entre a autora e Michel Laub, autor dos bons "Diário da queda" e Tribunal da quinta-feira. Ele soube perguntar, extrair de Lucrecia algo da gênese do livro, de seu processo inventivo e ambição, deixar a audiência curiosa sobre a narrativa. O livro é curto e se deixa ler com calma. Nele se contrastam questões ambientais e transformações na paisagem urbana; a violência mais natural do campo com aquela que se preferiria fosse invisível numa grande cidade; o tolo cabotinismo da classe média com os ardis de quem acostumou-se com a aspereza da vida; a memória idílica de uma juventude em Santos (uma Santos provinciana dos anos 1980) com a realidade da São Paulo contemporânea, cidade que talvez não tenha mais a capacidade de devorar deserdados sem regurgitar uma grande maioria. Uma sequência de coincidências percorre os capítulos (e se você não gosta de spoilers abandone agora mesmo esse registro): um sujeito volta para São Paulo após quase trinta anos justamente para o apartamento lindeiro ao de um casal que ele conheceu muito bem na juventude; esse sujeito presencia um crime que lhe granjeará uma vantagem indevida na relação com esse casal; sempre há alguém no livro que oportunamente torna-se uma espécie de coro grego, esclarecendo o protagonista do que se passa na trama (no seu drama, afinal). "Acre" é de fato um livro bem escrito, notadamente pela forma de fundir os diálogos no corpo do texto, mas me senti incomodado em vários momentos (e não pelos temas  que surgem na trama, mas sim por uma frouxidão constante que talvez se corrigisse esclarecendo menos, tornando as escolhas dos personagens mais ambíguas, menos previsíveis). Talvez o que o livro mais acertadamente nos lembre é que ninguém fica casado trinta anos impunemente. Ojo, vamos a ver o que essa curiosa autora nos preparará no futuro.
Registro #1201 (romance #323)
[Inicio: 01/08/2017 - fim: 03/08/2017]
"Acre", Lucrecia Zappi, São Paulo: editora Todavia, 1a. edição (2017), brochura 13,5x21 cm., 204 págs., ISBN: 978-85-93828-00-3

sábado, 12 de agosto de 2017

across the land and the water

Os poemas reunidos em "Across the Land and the Water" foram escritos por W.G. Sebald entre 1964 e 2001. Trata-se de um livro de 2008, publicado postumamente, organizado pelo editor Sven Meyer. Estão nele reunidos tanto poemas que já haviam sido incluídos em produções anteriores, como material inédito, hoje depositado nos arquivos Sebald da "Deutsche Literaturarchiv Marbach". Os dois livros de poemas dele que já registrei aqui: o pequeno e belo "Sin contar / Unerzählt", de 2003, e o longo e ambicioso "Del natural / Nacht der Natur", de 1988, não fazem parte desta seleção. Os poemas foram traduzidos, do alemão para o inglês, por Iain Gaibraith. Os quatro conjuntos de poemas (Poemtrees, School Latin, Across the Land and the Water, The Year Before Last) falam de fronteiras, viagens e paisagens, de leituras e registros do passado, do tempo e da memória, de mitos, lendas e tradições alemãs, do conforto da erudição, da experiência do exílio. Alguns destes poemas foram publicados em revistas e jornais anteriormente, mas nunca em livro. É difícil dizer se há um padrão neles (vamos combinar: sou o menor dos anões quando se fala em ler sistematicamente poesia; li esses poemas traduzidos e meu inglês é apenas regular; não se aprende muito das sutilezas de uma proposta poética apenas com a leitura ligeira que meu método de leitura utiliza; como sintetizar quarenta anos de produção poética, considerando que todos nos metamorfoseamos continuamente?). Todavia foi com a inteligência afetiva (em termos proustianos) que me aproximei destes versos. Os 88 poemas deixam-se ler e encantam. Estão distribuídos cronologicamente. Ora o narrador fixa nos versos uma epifania, cerebral ou mágica, ora uma bobagem qualquer, corriqueira, que nós, os não-poetas, nunca somos capazes de sentir, e ver, e escrever, mas entendemos quando lemos, como se fosse algo preso dentro de nós, subitamente revelado. Sempre só e curioso, fala do mundo e de si, congelando o tempo. Os poemas crescem em tamanho ao longo do tempo: os mais antigos são curtos, crípticos; os mais longos acadêmicos, intrincados sim, mas com sutis chaves de leitura. O título, retirado de um dos conjuntos de poemas, provavelmente escrito ainda nos anos 1980, dá conta daquela experiência que temos ao viajar sobretudo em trens, quando a paisagem se movimenta relativamente a nós em grande velocidade, tirando o foco de quase tudo, mas preservando uns pontos de referência, cinzas, verdes e azuis quase sempre, escolhos da vegetação e das águas que cortamos, como o deus Mercúrio corta o ar. O livro inclui um longo apêndice onde as alusões mais crípticas dos poemas são explicadas pelo tradutor. Um leitor verdadeiramente interessado na obra poética de Sebald tem nestas notas farto material de interpretação. Um Ulisses brota de um poema, a memória de umas férias em Marienbad doutro; o passageiro em trânsito vê da janela um mundo que passa veloz e pensa, inventa mundos, faz associações. O mundo mágico de Sebald é elástico, contém multidões whitimanianas, surpreeende sempre o leitor. Num poema, talvez em um erro tipográfico, aparece Saõ Paulo, ao invés de São Paulo, quando ele faz o censo das tribos viajantes de um aeroporto. Saõ Paulo, eh, Saõ Paulo, mas que diabo quer dizer isso?. Quando soube da morte de meu pai, o legítimo Aguinaldo Severino, no último 11 de julho, um domingo aziago, às 21h30min, fiz os preparativos de viagem, levando na bagagem até São Paulo apenas esse Sebald para ler. Logo após o sepultamento, há exatos dois meses, num início de tarde, como agora, 14 horas mais ou menos, do 12 de junho, eu repetia mentalmente, como um mantra, as palavras de Sebald: "Life is beautiful, but my day is truly wrecked".
Registro #1200 (poesia #85)
[início: 19/12/2016 - fim: 11/07/2017]
"Across the Land and the Water: Select poems, 1964-2001", W.G. Sebald, tradução de Iain Galbraith (do alemão para o inglês), London: Penguin Books, 1a. edição (2012), brochura 13x20 cm., 213 págs., ISBN: 978-0-141-04486-6 [edição original: Über das Land und das Wasser. Ausgewählte Gedichte 1964–2001 (München: Carl Hanser Verlag) 2008]

terça-feira, 8 de agosto de 2017

morte no teatro la fenice

Impressionado com a boa prosa de Donna Leon, após ter lido "Nada como ter amigos influentes" resolvi procurar outros livros dela. Encontrei entre tantos seu primeiro livro da série dedicada aos sucessos do comissário Guido Benetti, "Morte no teatro La Fenice". Não é um romance policial convencional, daquele tipo em que um problema é apresentado e rapidamente os passos lógicos da dedução do crime se seguem, com um ou outro pequeno desvio narrativo (ou uma questão política, sociológica, moral ou até mítica). O texto é longo, quase quatrocentas páginas. Donna Leon descreve os estados de humor, fisionomia e caráter dos personagens em detalhe e não se furta fazê-los divagar de quando em quando, abandonando completamente o problema ou crime a ser resolvido. Neste volume o leitor é apresentado a morte de um famoso maestro alemão durante os atos de uma peça no teatro La Fenice, emVeneza (uma joia sereníssima, que vale uma visita se o sujeito está por lá). A geografia da cidade e sua arquitetura dominam o livro. Brunetti cruza várias vezes os canais entre as ilhas da cidade para estabelecer o nexo entre às circunstâncias da morte do sujeito e sua história, que remonta os tempos da ascensão do nazismo, seus casamentos, seus admiradores e detratores. Como usualmente acontece neste tipo de livro, mesmo os suspeitos mais óbvios são afinal suspeitos que devem ser investigados. Brunetti conta com a colaboração de um eficiente médico legista, Rizzardi, o apoio de sua mulher, Paola, uma professora universitária e com a pressão de um cabotino procurador, Patta. Preciso ler mais livros dela para completar esse elenco, mas esse tipo de personagens são caricatos ao limite nos romances policiais. Brunetti não, parece ser um personagem com estofo, com invulgares qualidades morais e habilidades próprias de seu ofício. Ao contrário de seu congênere ficcional, o comissário Montalbano, de Andrea Camilleri, Brunetti nunca se exalta, é cordato e educado, porém firme em suas decisões. O livro aborda muito bem uma questão de gênero, ou melhor, as várias facetas das relações entre homens e mulheres no século XX. Acho que continuarei sim a ler livros desta "grande senhora do crime", como seus editores costumam chamá-la. Logo veremos. 
[início: 08/07/2017 - fim: 13/07/2017]
"Morte no teatro La Fenice (Brunetti #1)", Donna Leon, tradução de Lídia Geer, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), brochura 12,5x19 cm., 365 págs., ISBN: 978-989-657-198-2 [edição original: Death at La Fenice (New York: Harper Collins) 1992]

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

nombre falso

Li uma ou outra cousa do Piglia há muitos anos. Lembro-me sobretudo de "Respiração artificial" e de um livro de ensaios sobre literatura que comecei, mas não cheguei a terminar, "Formas breves". Sei que está nos guardados, mas onde?, ai de mim. Depois que ele morreu, no início deste ano, resolvi procurar novamente seus livros. Encomendei também os volumes dos Diários de Emílio Renzi, sua autobiografia disfarçada, mas como ler esses volumes antes de voltar às primeiras encarnações de Renzi e de Piglia? Encontrei "Nombre Falso" na última feira do livro de Santa Maria, pelas mãos, claro, de don Miguel, lá da Calle Corrientes. Trata-se de contos antigos, produzidos em 1975. A bem da verdade "Nombre falso", que da nome ao livro, é uma novela. O leitor acompanha os sucessos da gênese e descoberta de um raro manuscrito atribuído a Roberto Arlt, importante escritor argentino, da geração imediatamente anterior a de Piglia. Em ritmo de histórias policiais a narrativa homenageia Arlt, misturando trechos realmente inventados por Arlt com pastiches, situações rocambolescas e reflexões sobre o processo de criação literária e o mercado dos livros. Os contos propriamente ditos são cinco. Em "El fin del viaje" acompanhamos um sujeito que viaja de ônibus pelo interior argentino e conversa com mulher, que teria sido cantora de ópera e que aparentemente cometerá suicídio; "El Laucha Benítez cantaba boleros" é uma história de amor e morte entre dois boxeadores; "La caja de vidrio" é o relato de um rapaz aprisionado em uma relação com uma pessoa mais velha, um sedutor que reflete todas as misérias que o rapaz imagina serem dele; em "La loca y el relato del crimen" um jovem repórter de jornal decifra um crime através do entendimento da linguagem de uma mulher perturbada, mas a situação é bizarra demais para ser publicada por seu editor; por fim, em "El precio del amor", uma mulher recebe a visita de um amante, que lhe furta um bibelô junto com a ideia do amor entre ambos. Com uma dessas histórias ("La loca y el relato del crimen"), Piglia ganhou um curioso prêmio literário em 1975: duas passagens para Paris e quinze dias de estadia pagos. Apesar de não ser propriamente um iniciante, pois já havia publicado dois ou três livros antes, esses dias de escritor premiado em Paris deram-lhe a ilusão ou auto estima que faltava para começar a exercer seu ofício com maior disciplina. Todavia, ele ficou boa parte do tempo da viagem com medo de ser desmascarado como escritor medíocre. Sujeito divertido esse.
[início: 14/05/2017 - fim: 05/07/2017]
"Nombre falso", Ricardo Piglia, Buenos Aires: Debolsillo / Random House Mondadori (coleccíon Contemporánea), 1a. edição (2014), brochura 13x19 cm., 184 págs., ISBN: 978-987-566-979-6 [edição original:  Buenos Aires / Argentina: Siglo Veintiuno Editores, 1975]

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O método albertine

Quem primeiro falou-me deste livro foi don Ronai Rocha, filósofo dos bons. Trata-se de um pequeno volume, coisa de quarenta ou cinquenta páginas, onde Anne Carson, elenca um conjunto de asserções derivadas da relação entre Albertine Simonet e o narrador do ciclo "Em busca do tempo perdido", aquele que convencionou-se chamar de Marcel, como seu inventor, Marcel Proust. A tradutora e organizadora do livro é Vilma Arêas, ensaísta e professora paulista. Carson reúne em seu livro 59 sentenças, enunciados, que a tradutora preferiu chamar de fragmentos, e 16 apêndices curtos, que tratam de conceitos e temas derivados daqueles fragmentos iniciais. Se quase todos fragmentos e apêndices falam do universo que brota dos volumes "La Prisonnière" e "Albertine disparue", percebe-se que alguns focam na natureza da paixão e ciúme, do ponto de vista sociológico e psicológico, enquanto outros tratam dos limites entre ficção e realidade, da transposição de elementos da vida privada na literatura. Há duas coisas no livro e/ou na tradução que me irritaram. Não entendi exatamente o porquê da escolha do "método" no título, em transcriação de "workout". E os apêndices onde se discute a diferença entre metáfora e metonímia podem funcionar em inglês, mas a tradução para o português torna tudo enigmático demais. Enfim. No livro há grandes sacadas e frases francamente tolas, mas o conjunto é bom. A grande questão do livro (para o meu gosto) fica escondida em um curto fragmento, onde Carson cita um "deserto pós-Proust", definido como o lugar onde vivem a legião dos leitores que realmente leram todo o ciclo de Proust. Assim como a um depressivo é intolerável encontrar forças para continuar a vida após aborrecimentos ou mesmo o tédio, decidir-se a ler outra coisa após ter lido Proust é impossível. Restam então perguntas do tipo: (i) é possível definir-se na vida após um grande fracasso, uma desilusão amorosa ou mesmo a absoluta glória e reconhecimento?; (ii) haverá dedicação ou bravura possível para vencermos a inação e partirmos para um novo projeto?; (iii) não é mais provável que a grande maioria de nós sucumbirá e passará a reler apenas aquele grande livro, incapaz de seguir em frente?. Acredito que todo leitor Proust gostaria de escrever um livro assim (ou deveria ser tentado a tentar escrever um livro assim, explicitando sua obsessão ou familiaridade com o texto). Mas, como já nos ensinou Beckett, a equação proustiana nunca é simples. Cada leitor se aproxima do texto e solidifica suas memórias das passagens de uma forma diferente (nunca conheci quem tivesse exatamente o mesmo sentimento que eu sobre o conjunto dos personagens, à exceção de don Renato Cohen, com quem li quase simultaneamente todo o ciclo, nos gloriosos anos 1980). É isso. Bom divertimento.
[início: 02/07/2017 - fim: 04/07/2017]
"O método Albertine", Anne Carson, tradução de Vilma Arêas e Francisco Guimarães, São Paulo: Editora Jaboticaba, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 45 págs., ISBN: 978-85-93478-00-0. [edição original: The Albertine Workout (New York: New Directions / New Directions Poetry Pamphlet - book 13) 2014]

quinta-feira, 20 de julho de 2017

romping through dorian gray

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois do "Romping through Ulysses", do "Romping through Dubliners" (ambos sobre obras de James Joyce) e do "Romping through Dracula" (sobre Bram Stoker), eis que "Romping through Dorian Gray" rende homenagem a Oscar Wilde. Como nas anteriores, esta plaquete introduz ao leitor a ideia global de seu livro mais famoso, "O retrato de Dorian Gray" e fornece uma curta biografia do autor. Os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Cada episódio ou capítulo do livro ganha uma ilustração, uma citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade associados a Oscar Wilde: como o local onde nasceu, na Westland Row; o Trinity College, onde estudou; a localização de um monumento em sua homenagem, no belo parque público Merrion Square (e que fica defronte a casa onde a família de Wilde morou por muitos anos); o teatro que ele costumava frequentar quando disputava com Bram Stoker a atenção de uma atriz (Florence Balcombe, com quem Stoker acabou casando); e os demais parques, pubs e hotéis de Dublin. Um outro mapa identifica os locais de Londres onde se passam os sucessos de "O retrato de Dorian Gray": o estúdio onde Basil Hallward pinta o retrato de Dorian; as casas de Henry Wotton, Lady Agatha e Dorian Gray, próximas ao Hyde Park; o teatro onde atua Sibyl Vane e o hotel Bristol, onde Henry anuncia seu noivado com Sybil. Esses mapas permitem antecipar algo da experiência de flanar por Dublin e Londres, procurando cousas relacionadas ao Oscar Wilde ou Dorian Gray. São sempre divertidos esses livrinhos. Agora só me falta registrar a última das plaquetes, aquela dedicada à Jonathan Swift. Sláinte!
[início: 19/05/2017 - fim: 21/05/2017]
"Romping through Dorian Gray", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (ilustrações), James Moore, Dublin: At it Again! (2a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 60 págs., ISBN: 978-0-9576559-6-6